Pelos finais do séc. XVI, o emprego de frontais de azulejo foi oficializado em Espanha por regulamentação régia, para cumprimento de uma disposição tomada no Concílio de Sevilha em 1509 que desaconselhava o uso de frontais de tecido bordado onde era fácil introduzir figuras menos canónicas.


As determinações rigorosas da igreja católica, em matéria iconográfica seriam, no parecer da hierarquia, mais fáceis de controlar utilizando-se um material duradouro que dificultasse rápidas substituições.

É interessante lembrar que, em Portugal, já antes desta data se utilizaram azulejos para o mesmo fim, na sequência da rápida aceitação que a azulejaria teve no país, particularmente em Coimbra, após a importação de azulejos de corda seca e de aresta, adquiridos em 1503 em Sevilha, por encomenda de D. Jorge de Almeida que governou a diocese de 1483 a 1543.

As transformações técnicas a que o aparecimento da faiança conduziu a produção azulejar, substituindo o azulejo em relevo, muito compartimentado, por uma superfície plana, uniforme, de cor clara, sobre a qual se podia pintar, qualquer motivo, era a resposta ideal à preocupação da Igreja, aceite e reforçada pela pragmática de Filipe II de Espanha.

O fabrico e a aplicação regular de frontais de azulejo plano, em Portugal, tiveram início nos começos do séc. XVII, seguindo a popularidade de que os frontais produzidos em Talavera de la Reina gozavam então.

Na década de 30 tornou-se comum a opulenta decoração de “candelabros” e “brutescos”, inspirados no romano e chegados até nós por intermédio da produção flamenga, a par de enrolamentos vegetais, flores e frutos ou ainda de cartelas simétricas, emoldurando emblemas de famílias ou ordens religiosas. A partir de meados do século surgiu um novo tipo de decoração, especialmente na zona central do frontal, com “aves e ramagens”, reflectindo o encontro das culturas europeias e orientais que, além dos interesses de ordem política e económica se traduziu num enorme enriquecimento mútuo no domínio artístico.

Missionários e negociantes, foram os principais obreiros dessa aculturação nos dois sentidos, conduzindo por vezes a resultados originalíssimos como são as chamadas “lacas jesuíticas” e “arte indo-portuguesa”.

O gosto pelas decorações orientalizantes instalou-se rapidamente e o incremento da renovação, ou construção de raiz, de igrejas, palácios e casas fidalgas, – sobretudo após o termo da guerra com Espanha – deu um enorme impulso às artes decorativas e à difusão de ornatos e composições veiculadas pelas porcelanas e sedas bordadas da China e pelos algodões estampados da Índia, entre muitos outros artigos de que se destacam os tapetes persas e indianos.

É neste contexto que se deve situar o frontal de altar que elegemos. Bom exemplo da conjugação de diferentes estéticas e tradições culturais, descreve uma cena de caça que é um tema muito raro em frontais. Pode datar-se em torno de 1670.

O seu colorido, predominantemente bicromo, a azul e amarelo intensos, é o que melhor define o revestimento azulejar parietal do séc. XVII em que o frontal se integrava – o conhecido azulejo de tapete, também ele inspirado em desenhos de matriz oriental. Todavia, a presença de outras cores, mais subtis, anuncia a paleta que marcou os finais do século.

Sabe-se que esta peça, de fabrico lisboeta, foi executada para um convento carmelita da região de Coimbra, embora ainda não tenha sido possível identificá-lo.

A sua incorporação no museu deve-se à extinção das ordens religiosas e fez parte do primeiro lote de bens inventariados.