Objetos de Adorno Pessoal

A coleção de joalharia deste museu é essencialmente constituída por peças provenientes de casas religiosas onde deram entrada, na qualidade de dote de noviça, oferenda, doação régias ou legado.

As joias anteriores ao séc. XVI são uma raridade, dado que os particulares frequentemente as desfaziam e remontavam ao sabor da moda. O colar do séc. XIV (MNMC6037 ), integrado no chamado “tesouro da Rainha Santa Isabel” é uma exceção que circunstâncias muito particulares justificam.

No séc. XVI, palco privilegiado de uma nova arte de viver fascinada pelo Oriente e os seus segredos. Lisboa torna-se o pólo aglutinador das preciosidades de além-mar (ouro, diamantes da Índia, aljôfares , esmeraldas, rubis, safiras, pérolas, âmbar, coral, etc.) e entreposto comercial de ourives e lapidários estrangeiros que aqui se estabelecem. O luxo e o requinte parecem ditar a moda, tanto de clérigos como de laicos que encontram nas doações e encomendas a materialização de um gosto que se quer exótico.

Generaliza-se o uso dos pendentes periformes ou circulares, com figuras cinzeladas e esmaltadas, enriquecidas de pérolas e pedras, por vezes adornados de camafeus , cuja temática tem cariz clássico ou religioso. ( MNMC3426 ) e ( MNMC2817 ).

O séc. XVII assiste ao predomínio das pedras preciosas, tornando-se as joias pretexto para exibição de tudo o que brilha, numa antecipação do esplendor que o diamante conferirá à centúria seguinte (MNMC3428) . Apesar da crise que ensombra o país, a joalharia não parece afetada. O universo temático é eminentemente religioso, proliferando os rosários em ouro e madeira exótica e as cruzes, geralmente gravadas, com motivos florais, geométricos ou sagrados, e ornadas de esmaltes. As montagens e cravações adelgaçam-se cada vez mais e a voga dos elementos florais parece invadir o imaginário dos joalheiros, decerto influenciado pelas experiências botânicas de Jean Robin (fim do séc. XVI) e divulgadas através da gravura.

A famosa “laça nortenha é guarnecida de enrolamentos filiformes e enriquecida pela aplicação de pequenos diamantes.( MNMC2753-A ) ( MNMC2755 ) (MNMC2761-2) ). Influenciada pela arte da filigrana, torna-se no séc. XVII a joia portuguesa por excelência, prolongando-se o seu uso por mais de dois séculos.

Progressivamente, a exuberância dos motivos florais vai-se complicando até atingir uma quase dissolução. É um trabalho que se estende às pulseiras, gargantilhas, anéis e brincos. Estes últimos surgem por meados do século – pois só então se generaliza o uso do cabelo apanhado – e caracterizam-se pela montagem de três peças articuladas, sendo a do meio em laçada dupla (fig. 7 ) e a inferior em forma de pingente. Do mesmo período, e característicos da Península, são os brincos de gota alongada exuberantemente ornados de granadas (MNMC8764-A) .

Ainda como adereços essenciais da toilette divulgam-se os trémulos ou tremedeiras, engenhosos alfinetes de cabelo revestidos a pedraria e de grande efeito cénico.

Este século assiste igualmente à divulgação do sequilé , sobretudo no sul de Portugal, num trabalho muito semelhante à laça. Esta variante de pendente, com origem francesa também conhecida como rosicler , não possui, no entanto, a laçada dupla e tem forma losangular prolongada por quatro ou cinco pingentes. As cruzes-relicário, de figuração religiosa e decoração esmaltada, bem como os pendentes com miniaturas pintadas ou as arrecadas em esmalte, atestam a permanência de um gosto popular na reta final de um século que, em breve, assistirá ao triunfo da joalharia sobre a ourivesaria.

Como dissemos já, o séc. XVIII vai tornar-se a idade do diamante, no rasto do gosto internacional, alimentado pelas grandes explorações diamantíferas na Índia e no Brasil.