Alfaias de culto, símbolos de prestígio

Formada, predominantemente, por ourivesaria sacra feita de prata, esta coleção constitui um repositório das diferentes linguagens artísticas e capacidades técnicas de artífices nacionais e estrangeiros desenvolvidas ao longo de oito centúrias.

O século XII caracteriza-se pela adoção de formas baixas, bojudas e lisas. Quando decoradas, ( MNMC6030 ) o relevo é pouco acentuado.

O séc. XIII revela-se um tempo de compromisso (MNMC6033) , base entre as opções da anterior linguagem românica e o Gótico emergente.

A gramática decorativa e estrutural da arte gótica expande-se para o campo da ourivesaria na primeira metade do século XIV, abrindo aos artistas do ouro e da prata um leque de possibilidades criativas. No período inicial, subsiste uma certa contenção e sobriedade, mas o recurso a outros materiais traz um valor acrescido aos modelos adotados, como se pode constatar nas peças que integram o tesouro da Rainha Santa Isabel.

Para além da combinação da prata e do ouro com novas matérias preciosas( MNMC6035 ), (MNMC6036) e ( MNMC6040 ), a segunda metade do século caracteriza-se pela adoção de elementos arquitetónicos (MNMC6076) , conferindo maior verticalidade à estrutura das peças e um efeito ascensional aos ornamentos cinzelados. Esta elevação inscreve-se na espiritualidade da arte gótica que procura dirigir o olhar dos fiéis para a luz divina, concretizando a ascese redentora da humanidade.

A primeira metade do século XV assiste ao triunfo definitivo do Gótico, ( MNMC6035 ) e ( MNMC6082 ) acentuando-se ainda mais a articulação da ourivesaria com a arquitetura, na elaboração da base de cálices, e dos nós de custódias e cruzes processionais.

A utilização do brasão e do escudo heráldico, da legenda ou da inscrição votiva, é cada vez mais frequente nas peças de maior prestígio da época. A identificação do proprietário traduz certamente a necessidade de ostentação mas poderá também inscrever-se na lógica do decreto de D. Afonso V, de 1472, que preconizava a marcação de todas as peças de maior aparato e valor material com estes sinais exteriores, como forma de controlar os elevados custos de produção do mercado de arte da ourivesaria nacional.

Durante o reinado de D. Manuel I, ( MNMC6082 ), ( MNMC6091 ), ( MNMC6092) e ( MNMC6092A ) a arte portuguesa conhece um incremento notável, fruto da conjuntura económica extremamente favorável, decorrente da expansão portuguesa pelo Oriente. O enriquecimento da sociedade desencadeia um forte desejo de luxo e ostentação a que a ourivesaria facilmente responde. O próprio monarca patrocina inúmeras obras de arte, sempre identificadas pelo seu símbolo pessoal – a esfera armilar – como afirmação de poder e grandeza.

Ourives e prateiros de toda a Europa confluem à cidade de Lisboa – o porto mais importante para o comércio de pedras preciosas – onde abrem tenda, chegando a atingir o número de 430, em meados do séc. XVI.

A partir da década de 30, ( MNMC6093) em pleno reinado de D. João III, a arte da Renascença autonomiza-se. Recuperando elementos e motivos decorativos da Antiguidade greco-romana, adota uma linguagem ornamental sóbria e clara, que substitui a concentração desordenada característica da decoração manuelina.

O Maneirismo, (MNMC6095) estilo artístico oriundo da Itália, eclode na Europa a partir do primeiro quartel do séc. XVI, numa altura em que se assiste à mudança radical dos valores – de harmonia, ordem e equilíbrio – estabelecidos anteriormente. Agora, no campo da arte, há uma visão pessimista e caótica do universo, que desfaz o ideal renascentista do Homem como centro do universo, dando origem a soluções radicalizadas, provocadas pela Reforma e pelo movimento da Contrarreforma, em que a tardia experiência maneirista portuguesa se integrará.

É principalmente após 1563 (data da última sessão do Concílio de Trento) que Portugal define os padrões iconográficos das representações religiosas, corrigindo determinados temas anteriores, de acordo com os dogmas da Contrarreforma e com a desejada função pedagógica que visava inflamar as almas dos crentes através de cenas de milagres, mártires e exaltação mística.

Na segunda metade do séc. XVI, generaliza-se a censura das imagens sagradas, proibindo os aspetos menos ortodoxos que possam sugerir interpretações dúbias junto dos fiéis menos instruídos. Em termos iconográficos, a tendência portuguesa promove a decência e desenvolve uma veia catequizadora. Assim, os restos mortais de santos e mártires, ou simples representações invocativas destes, são guardados em recetáculos – os relicários - (MNMC6210) (MNMC6211 ) que podem ter os mais variados formatos e dimensões, acompanhando os diferentes estilos artísticos.

Muitos dos recetáculos de relíquias são em forma de cruz e as cruzes-relicário aparecem como mero pretexto para expor um maior número de relíquias.

No limiar do séc. XVII, Portugal atravessa um período de depressão económica que as despesas decorrentes das guerras da Restauração acentuarão, a partir de 1640.

Estas dificuldades económicas condicionam a produção artística nacional, embora a depuração formal ou a contenção decorativa de algumas obras de arte seiscentista seja determinada por opções estéticas e razões de ordem ideológica. A par de uma sobriedade estrutural e decorativa, visível nalgumas peças da primeira metade do séc. XVII e influenciada pela via do denominado “estilo chão”, recorre-se, igualmente, a uma decoração sugerida pela herança da arte maneirista: mascarões, querubins, laçarias, temas vegetalistas e elementos tirados dos tratados de arquitetura ou simplesmente fantasiados. Outra das influências marcantes da arte seiscentista portuguesa radica na importação de exóticas obras (MNMC6121) (MNMC6510) de arte africanas, indianas e do Extremo-Oriente.

Neste período de transição, a segunda metade do século prolonga a coexistência de diferentes correntes artísticas. No entanto, apesar da crise económica perdurar, a arte experimenta uma nova orientação italianizante protagonizada por D. Pedro II. O papel dos artistas estrangeiros, a importação de obras, o recurso a tratados teóricos e a divulgação de gravuras contribuem para a gradual adesão à estética barroca. É um processo lento, que se manifesta tardiamente na ourivesaria, marcado por um profundo sentimento religioso. Avultam as peças sumptuosas como os sacrários e tronos de prata ou as luxuosas encadernações dos missais, a par de inúmeros relicários, custódias, cruzes, coroas, ramos de altar, báculos.

A influência da arquitetura na decoração, a representação de figuras meramente decorativas, os esmaltes e pedrarias perdem terreno. A par da figuração da História Sagrada generaliza-se uma decoração vegetalista exuberante (acantos, folhagem, videiras, espigas), onde a túlipa se afirma como ornato por excelência.

Paralelamente a uma tendência que valoriza a simplicidade da forma, esta profusão decorativa invade as peças de origem profana – salvas, fruteiros, jarras, gomis, etc., numa sensibilidade proto-barroca que anuncia as grandes realizações do Barroco.

Procurando efeitos rebuscados e contrastantes entre linhas dinâmicas e formas volumosas, a arte barroca, (MNMC6598 ) (MNMC6863) (MNMC6584) desenvolve-se na segunda metade do século XVII e triunfará no século seguinte, coincidindo com o esplendor do reinado de D. João V. Nesta altura, a ourivesaria portuguesa perde um pouco da originalidade que, entretanto, criara ao adotar os modelos importados de França e sobretudo da Itália.

Na realidade, os modelos italianos e franceses far-se-ão sentir até finais do século XVIII, a par da linguagem neoclássica introduzida pela comunidade britânica no Porto.