Retábulos e outras pinturas de devoção

A coleção de pintura deste Museu, constituída por obras datáveis do séc. XV ao séc. XX, provém essencialmente dos conventos da cidade e da região, o que explica a predominância dos temas religiosos. Excetua-se alguma produção do século dezoito e seguintes, em parte integrada por aquisição, mas devida sobretudo a doações.

Num percurso por três dezenas de obras, procuramos transmitir ao visitante o panorama da pintura portuguesa, de Quatrocentos ao Século das Luzes.

A temática sacra é uma constante dessa trajetória, intrinsecamente relacionada com a cultura judaico-cristã e com as matrizes clássicas, com referentes da mitologia greco-romana.

A representação da pintura dos séculos XIX e XX, na coleção, tem grandes hiatos e está confinada a artistas portugueses de que se destacam Henrique Pousão, Columbano e Manuel Jardim.

A pintura portuguesa dos reinados de D. Afonso V e D. João II é essencialmente retabular e desenvolve-se sob influência da nova pintura da Flandres, assumindo no entanto um cunho marcadamente hispânico e mesmo regional

A diversidade de influências e a qualidade muito heterogénea, que esta produção oferece, têm dificultado a identificação de autores e oficinas bem como a sua filiação.

Além disso, o número exíguo de obras conhecidas e os danos e transformações que muitas delas sofreram, em época posterior, limitam a compreensão da própria linha evolutiva da pintura portuguesa do séc. XV.

São bons exemplos de tais obstáculos e dificuldades a Senhora da Rosa e o Tríptico de Santa Clara ( MNMC11266 )e ( MNMC2521 ).

Ao longo deste século e sobretudo no seguinte, vários fatores contribuíram para que um novo grupo social ascendesse em toda a Europa: a burguesia, o que explica o desenvolvimento do retrato e o aparecimento da sátira entre outros temas profanos.

Para o seu desenvolvimento, contribuiu o facto de esta temática se adaptar melhor do que a religiosa – com exceção das tradicionais representações da Virgem com o Menino – às pequenas dimensões da pintura de cavalete.

Estas obras eram produzidas em grandes quantidades nas feitorias de Bruges e Antuérpia, para o mercado livre, onde senhores de toda a Europa as podiam adquirir. É assim que pequenos quadros de bons pintores flamengos chegaram às coleções portuguesas, como testemunham as duas pequenas tábuas deste Museu: Virgem com o Menino (MNMC3351) , e Santa Face, pintura que lembra os ícones bizantinos, quer pela frontalidade da figura quer pelo tratamento do fundo dourado.

Outra via de aquisição de obras de arte é a encomenda direta na Flandres – província com a qual Portugal estreitou relações comerciais a partir da primeira metade do séc. XV.

No início do século seguinte e sobretudo a partir do reinado de D. Manuel, os reis adquirem vastos conjuntos retabulares ou simples trípticos para os mosteiros da sua proteção. Em Coimbra, os mais favorecidos são o convento antigo de Santa Clara e o de Santa Maria de Celas. Para Santa Clara, o feitor Silvestre Nunes encomenda ao pintor Quentin Metsys, o Tríptico da Paixão de Cristo (MNMC2518) , que chega a Portugal em 1517.

Para Santa Maria de Celas, D. João III, paga, em 1525, o transporte de um retábulo para o altar-mor, mandado executar no Norte da Europa pela abadessa D. Leonor de Vasconcelos, daquele convento. Desse conjunto conservam-se quatro painéis no Museu e uma Anunciação na Igreja do Mosteiro, ainda que algo amputados.

Tais encomendas tiveram grande repercussão na produção pictórica portuguesa coeva. Assim, até meados do séc. XVI, no período áureo dos Descobrimentos, é vulgar observar nas obras das oficinas de Lisboa a repetição dos fundos de paisagem, as cenas secundárias com narrativas alusivas ao tema central, o tratamento “esculpido” dos panejamentos, a marcação dos contornos das formas, a paleta colorida e transparente.

Porém, em Coimbra, a pintura não se desenvolveu ao ritmo da capital. Para isso contribuiu a tradição, mantendo-se a produção local dos retábulos esculpidos em pedra de Ançã.

A primeira oficina de pintura documentada em Coimbra, foi fundada na última década do séc. XV por Vicente Gil, continuada por seu filho Manuel Vicente e pelo neto, Bernardo Manuel, perdurando até finais do século seguinte.

As obras do primeiro testemunham tal apego aos modelos góticos que difícil é aceitá-lo como um pintor do séc. XVI (MNMC2520) .

A preferência pela pintura do Norte deveu-se ainda ao afluxo de pintores flamengos a laborar em Portugal no início do séc. XVI, formando discípulos, entre os quais avultam Cristovão de Figueiredo e Garcia Fernandes. Trabalharam estes, em parceria, com Gregório Lopes e Cristovão de Utreque, no Mosteiro de Ferreirim, no segundo quartel do século e, nessa empreitada, teve origem o epíteto de Mestres de Ferreirim, pelo qual os quatro artistas têm sido designados. À prática da parceria, tão característica na época, para empreitadas de vulto, se deve a dificuldade de identificar a obra individual, o que se observa, por exemplo, no painel de S. Pedro, agora exposto. O mesmo se verifica quanto à atribuição de autoria ao Tríptico da Aparição de Cristo à Virgem, datado de 1531, tradicionalmente associado a Garcia Fernandes (MNMC2515) . Estudos recentes apontam para mais do que um pintor na execução desta obra, o que é credível do ponto de vista formal, técnico e até histórico: Cristovão de Figueiredo terminava nesta data, para o Mosteiro de Santa Cruz, o monumental retábulo destinado à capela-mor, do qual apresentamos o Achamento da Santa Cruz , o Milagre da Ressurreição do Mancebo e o Imperador Heráclio com a Santa Cruz, ou Exalçamento da Santa Cruz (MNMC2512) . Deste conjunto restam ainda na igreja de origem o Calvário, o Ecce Homo e quatro pinturas ovais figurando os bustos de oito Apóstolos; outras pinturas e um grande conjunto escultórico, que se pensa terá ocupado o espaço central, estão dispersos por diferentes instituições.

Da produção portuguesa da segunda metade de Quinhentos e da centúria seguinte, destaca-se a pintura maneirista de Coimbra, permitindo o estudo das oficinas locais e a comparação com as de Lisboa que trabalham nesta cidade contemporaneamente. v Ilustram bem o Maneirismo de Coimbra as obras de Bernardo Manuel (MNMC2526) , Álvaro Nogueira e Belchior da Fonseca, correspondentes aos anos de 1560 – 1590.

Além destas, possui a coleção algumas dezenas, entre tábuas e telas, de pinturas de menor qualidade, de difícil atribuição e datação exata, devido à repetição dos modelos e ao caráter corporativo da produção.

Em parte, esses modelos buscam-se nas obras que Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão produzem para os novos colégios, chamando a colaborar artistas locais que os imitam e divulgam.

À coleção do Museu pertenceu o conjunto de dez tábuas realizadas pelos dois parceiros para a sacristia da Sé (MNMC2584) e as telas do retábulo que lhes foi encomendado para o novo Mosteiro de Santa Ana (MNMC2505) .

Embora inscritas no formulário contrarreformista – tal como a série de iconografia cristológica, da Sé – as telas de Santa Ana, ilustrando temas marianos, anunciam já a etapa seguinte da pintura portuguesa, claramente expressa nas obras de Manuel Henriques, SJ (MNMC2442) e de Josefa d’Óbidos (MNMC2649) . Na primeira está bem expressa a temática das missões e da capacidade de, através do martírio, se atingir o estatuto divino; na segunda, Maria Madalena dá o testemunho máximo dessa doutrina. Ambas culminam no contraste entre claro e escuro, cada vez mais intenso no Proto-barroco.

Bento Coelho da Silveira é, dentro deste período, o autor melhor representado na coleção, com cerca de vinte obras (MNMC2450) . O programa iconográfico completo para a decoração da Capela dos Enfermos do Colégio de Jesus, do qual se conservam, no Museu, treze telas, valeu-lhe destaque em poesia, em 1660 – o Elogio, da Academia dos Singulares.

O Museu é pobre em pintura barroca, não obstante a grande quantidade de peças datáveis do séc. XVIII. Com efeito, ilustram uma produção menor, constituída especialmente por retratos eclesiásticos e telas provenientes de cadeirais e pequenos retábulos, em mau estado de conservação.

No entanto, alguns nomes ainda são dignos de menção como André Gonçalves (MNMC2627) , Pedro Alexandrino de Carvalho e Pasqualle Parente.