Louças, Mosaicos e Azulejos

Esta coleção compreende produtos cerâmicos de uso doméstico, de revestimento parietal e pavimentar, ilustrando numerosos fabricos, de procedências várias, desde o séc. XV ao séc. XX. Tratá-los-emos em conjunto, dentro dos grandes períodos cronológicos em que surgem e se desenvolvem, embora distinguindo os principais centros cerâmicos.

Séculos XV-XVI

Os mosaicos cerâmicos para pavimentos e os azulejos, destinados às paredes, adquiriram em Portugal uma expressão que só teve paralelo nas civilizações islâmicas.

Os mosaicos cerâmicos monocromáticos, que podem ver-se igualmente no Mosteiro de Alcobaça (séc. XIII) e na alcáçova de D. Dinis no Castelo de Leiria (séc. XIV), representam a herança muçulmana.

Nos meados do séc. XV, os pavimentos deste tipo são substituídos por outros, compostos por módulos de repetição octogonais, resultantes da associação de losetas e alfardons , importados de Manises, decorados com motivos em azul e manganês (MNMC5278) .

Com D. Manuel I, o azulejo hispano-mourisco , fabricado sobretudo em Sevilha, entra pela primeira vez em Portugal.

A sua notável policromia utiliza as técnicas de corda seca (MNMC1401) e (MNMC1400) e aresta (MNMC5752) . Excetuando um período, em que coexistiram, considera-se que cada uma destas técnicas teve decorações próprias, sendo característicos da corda seca, os motivos islâmicos e da aresta, os motivos góticos e renascentistas.

Foram azulejos deste género os encomendados em 1503 por Olivier de Gand, em representação do Bispo-Conde D. Jorge de Almeida, no âmbito das profundas obras de remodelação da Catedral de Coimbra. Aplicados em grandes superfícies, integrando-se na arquitetura, influenciaram decisivamente o futuro desta arte em Portugal.

Em meados do século XVI, assiste-se a uma mudança de gosto, e os azulejos relevados dão lugar aos azulejos lisos, de faiança . Ao lado de composições de xadrez que, na forma mais simples, resulta da alternância regular de azulejos brancos com outros, geralmente azuis ou verdes (MNMC11687) , surgem os primeiros azulejos com decoração pintada, atribuídos a autores portugueses, nomeadamente os painéis de caráter erudito e as composições de “ grotescos ” e “ferragens” (MNMC5762) , típicas da linguagem maneirista italo-flamenga.

Na Baixa Idade-Média, as cerâmicas mais comuns, ditas “ louças de barro ” e destinadas em geral à cozinha, pouco diferem das produções anteriores. Pelo contrário, as utilizadas à mesa, sobretudo os vasos para beber (MNMC1375) , apresentam alguma originalidade.

Em paralelo, assiste-se à redescoberta das coberturas vítreas, à base de óxido de chumbo, que representam um progresso técnico de capital importância na história da cerâmica .

Esta «louça vidrada» foi comum na Europa, até ao fim da Idade Média, quando se opera a divulgação das faianças, que vêm – com o seu vidrado claro e opaco, de estanho – revolucionar a indústria cerâmica, devido às novas possibilidades decorativas que proporcionam.

O primeiro grande momento da faiança deve ser procurado nos séculos XIII e XIV, em Málaga e Manises, onde se desenvolveram as cerâmicas decoradas com reflexo metálico (MNMC3446) .

Inicialmente, as formas e decorações revelam influência islâmica, nomeadamente pelo uso de carateres cúficos e arabescos. Após a Reconquista, esta decoração cede lugar a outra, em que carateres góticos e símbolos cristãos sobressaem de motivos de cariz naturalista.

Graças às faianças hispano-mouriscas, a cerâmica adquire, pela primeira vez na Europa, um certo prestígio, passando a figurar no adorno das mesas da nobreza.

Este gosto é particularmente visível em Itália, onde cedo aparece a designação de “ majólicas ” -por que eram aí conhecidas as cerâmicas de reflexo metálico, importadas de Espanha – a qual, no futuro, irá aplicar-se às faianças italianas do Renascimento.

A apetência pelas majólicas provocou um surto migratório de oleiros em direção ao Norte, sabendo-se que, no início do séc. XVI, já se tinham estabelecido em Antuérpia, de onde o estilo italiano (MNMC11689) se expandiu, vigorando até ao início do século seguinte. Por essa época, os portugueses rompem com a tradição, transpondo para as faianças as decorações das porcelanas chinesas e implementando a moda do “azul e branco”, que iria ter continuidade até ao presente.

O início da faiança em Portugal não pode ser definido com clareza, sabendo-se, no entanto, que nos meados de Quinhentos, em Lisboa, já se fabricava louça com vidrado de estanho (MNMC11690 e MNMC11697) .

O estabelecimento nesta cidade, de discípulos dos italianos que se tinham fixado em Antuérpia, é fundamental, porque implantam definitivamente a técnica da faiança e introduzem uma nova linguagem plástica: o Maneirismo flamengo, que irá influenciar outras artes decorativas portuguesas, como o azulejo, a talha dourada e a pintura ornamental de tetos.

Século XVII

O revestimento azulejar prolonga neste século, até c. de 1630, as composições de xadrez. A partir desta data, são definitivamente adotadas as composições de padrões policromos (figs. MNMC11688 , ( MNMC5766 )e (MNMC1428) de mais fácil aplicação e mais ao gosto da época.

As composições de tapete - que se converteram na imagem de marca do azulejo português e ocupam o lugar que noutros países é reservado ao fresco, ao mármore e ao vitral - devem o nome à sugestão que provocam várias tapeçarias justapostas.

Os primeiros padrões remetem para os exemplares de Sevilha e Talavera, decorados com laçarias, ponta de diamante e folhas de acanto estilizadas, conhecidas em Portugal por “parras”.

Os esquemas italo-flamengos de expressão maneirista, distinguem-se pela coloração alaranjada e pelas laçarias e “ferragens”. Este padrão , considerado o primeiro produzido em série em Portugal, esteve na base de diversas variantes em uso no primeiro quartel do séc. XVII.

Após 1630 manifesta-se a influência oriental, surgindo novos temas ornamentais, inspirados nos tapetes bordados e nos tecidos estampados da Ìndia. Na fase final do séc. XVII alguns destes padrões adotam a pintura azul, e surgem outros, ornados com folhagem, volutas e florões barrocos, inspirados na pintura tradicional de tetos.

Os “ tapetes ” são definidos por molduras, algumas das quais específicas de determinados padrões. São ornamentadas com motivos geométricos, vegetalistas e figurativos.

Os painéis figurativos, cujo período de esplendor tinha sido atingido com as composições renascentistas do final do séc. XVI, foram gradualmente substituídos por azulejos de padrão , ficando o seu uso limitado ao interior das igrejas, integrados nos “tapetes”, embora com molduras próprias. Além dos painéis emblemáticos, com símbolos religiosos ou emblemas de corporações religiosas e famílias nobres, distinguem-se os painéis hagiográficos, muito ingénuos, inspirados nas gravuras maneiristas de caráter erudito.

No terceiro quartel do séc. XVII, estes quadros começam a agrupar-se, formando séries narrativas.

Entretanto, ao terminar a guerra com Espanha, em 1667, assiste-se à construção ou renovação de palácios, entrando o azulejo definitivamente na esfera privada para satisfazer as necessidades sumptuárias de uma nobreza cujas finanças permaneciam depauperadas.

Além das mudanças ao nível da temática, em que imagens de caçadas, “ macacarias ”, ou temas mitológicos e alegóricos, substituem outras, de cariz religioso, assiste-se a outra alteração fundamental. Com espaços disponíveis menores, os painéis são aplicados como silhares , antecipando a decadência dos grandes revestimentos de “tapete” e anunciando as composições historiadas que iriam fazer a glória do séc. XVIII.

Os frontais de altar de azulejos (MNMC1426) , substituem os originais, em tecido, desaconselhados pelo Concílio de Sevilha realizado em 1509.

A partir de meados do séc. XVII, as imitações de brocados e as decorações de brutescos cedem lugar às de “aves e ramagens”, refletindo o gosto da sociedade portuguesa pelas decorações orientalizantes.

Estes frontais apresentam o “pano” decorado com motivos exóticos, de inspiração indo-persa e a sanefa e sebastos , com motivos renascença dos tecidos bordados de origem europeia.

O gosto pelas composições renascentistas do séc. XVI, proporciona o desenvolvimento, no primeiro terço do séc. XVII, dos chamados brutescos, da autoria de modestos artífices, sem formação erudita, que adulteram as imagens em que se inspiram.

Estes painéis, de elevado preço, são aplicados em espaços bem definidos, localizados nas zonas mais nobres das igrejas e, a partir de 1670, nos novos palácios, onde também irão surgir as composições supercromáticas, de largas folhagens, que são as manifestações mais recuadas do gosto barroco em suporte azulejar.

Outro motivo característico da fase final da policromia seiscentista são os vasos floridos retirados das composições de bruscos que, ao perderem a moldura que os individualizava, estão na origem dos silhares de “ albarradas ”, aplicados nas zonas menos nobres dos conventos e palácios, tanto em policromia, no século XVII, como em azul e branco, até meados do séc. XVIII.

Em contraste com a azulejaria, que se desenvolveu em policromia, refletindo as raízes italo-flamengas, a faiança do século XVII caracteriza-se pelas decorações, em azul e branco (MNMC9601 ), inspiradas nas das porcelanas chinesas coevas.

Já em 1582, numa carta dirigida às filhas, Filipe I de Portugal, refere o envio de «porcelanas de nueva manera», que não são mais do que faianças com decoração oriental, fabricadas em Lisboa. Em 1620, Nicolau de Oliveira regista 28 fornos de faiança, 76 pintores e 46 desenhadores, números reveladores da importância do ofício.

J. Baart explica esta situação pelo novo hábito de comer em pratos individuais e pelo uso crescente da faiança como louça de mesa, quando, durante o séc. XVI, as majólicas substituíram as baixelas metálicas.

Após 1610, os mercadores introduziram no comércio internacional as faianças orientalizantes, concorrendo com a Itália neste nicho de mercado.

Materiais provenientes de escavações realizadas no bairro dos judeus portugueses em Amesterdão, um pouco por toda a Europa e nas antigas colónias portuguesas e espanholas, confirmam as palavras de Severim de Faria, referindo que «está o reino cheio desta louça, mas muita vai de carregação para fora da Barra».

A partir de 1657, com a suspensão abrupta da importação de porcelanas da China, a faiança holandesa conheceu um aperfeiçoamento notável, passando a «louça de Delft», tecnicamente muito superior, a ocupar o lugar até então reservado às produções portuguesas.

Esta falta de mercado ajuda a explicar a decadência experimentada a partir de finais do séc. XVII, contrastando com o fulgor então alcançado pelo azulejo.

A importância da faiança portuguesa, tecnicamente modesta, deve-se à originalidade da decoração. Inspirada nas porcelanas chinesas contemporâneas, não as copiava fielmente, como a louça de Delft.

Recentemente, J. Baart, baseado nos achados arqueológicos de Amesterdão, divide a faiança portuguesa do séc. XVII em três grupos:

1600-1625: decorações inspiradas nas majólicas italianas, faianças espanholas, cerâmicas portuguesas tradicionais e, em menor escala, nas porcelanas chinesas.

1625-1650: imitando porcelanas produzidas no reinado do Imperador Wanli, fabricadas expressamente para exportação.

Decorações com figuras geométricas curvilíneas, de influência. Islâmica.

1650-1675: decoração com figuras chinesas em paisagens, contornadas a manganés, ou seja, as chamadas faianças de «desenho miúdo» (MNMC9593) , inspiradas nas porcelanas do Período de Transição (1620-1683).

Todavia, a classificação de Reynaldo dos Santos, anterior, mais minuciosa, é válida para a produção da segunda metade do século.

Assim, pertencem ao terceiro quartel, os «aranhões» (MNMC9566) , nome por que são conhecidas as peças decoradas com símbolos chineses muito adulterados e ao último quarto as faianças de «três contas» (MNMC4510) , «caracóis barrocos» (MNMC9603) e «rendas» (MNMC9621) , onde é manifesta a ausência de temas chineses.

Séculos XVIII-XX

No séc. XVIII, o azulejo tem um papel fundamental na definição do Barroco português, consolidando-se o gosto pelos painéis historiados em azul e branco, que passam a decorar a maioria das igrejas e palácios construídos, ou renovados, na época joanina

Os azulejos provenientes da Holanda (MNMC11716) satisfazem encomendas muito concretas, adaptadas ao gosto português e a sua importância deve-se essencialmente à introdução de temática de caráter erudito e ao preciosismo da pintura.

Maravilhados com a qualidade da pintura desses azulejos, os fabricantes recorrem aos pintores de formação erudita, sendo Gabriel del Barco o primeiro a assumir-se como pintor de azulejos.

O gosto pelos seus painéis desencadeia uma procura desenfreada, estando na origem da “grande produção” (MNMC1174) . de 1725-1750, coincidente com a segunda metade do reinado de D. João V. A produção tornou-se esteriotipada, assistindo-se a uma progressiva simplificação das partes figurativas, em contraste com a valorização das molduras que adquirem um caráter monumental.

Os chamados “azulejos didáticos” ( MNMC5178 ), provenientes do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, ou do Colégio das Artes, de Coimbra, reproduzem figuras astronómicas, nomeadamente o Sistema Ptolomaico e algumas proposições e definições, ilustradas na obra “Os Elementos de Euclides”, do padre jesuíta A.Tacquet, publicada pela primeira vez em 1654.

A presença de painéis com temas alusivos às matérias ministradas nas salas de aula do antigo Colégio do Espírito Santo, em Évora, reforça a ideia da importância que os jesuítas davam à imagem como complemento dos áridos textos dos manuais.

No final do séc.XVII, Coimbra tornara-se um centro produtor de grande importância, destacando-se a parceria Manuel da Silva /Agostinho de Paiva. Embora lhe estejam atribuídas algumas séries narrativas, como as pintadas para a Sé Velha de Coimbra, entre 1720 e 1724, as suas realizações mais significativas são os silhares de albarradas e os azulejos de figura avulsa (MNMC11716) , presentes na Universidade e na maioria dos colégios e conventos da região, tornando-se uma especialidade da cidade.

Para o desenvolvimento da azulejaria coimbrã no último quartel do século XVIII, teve particular relevância a atividade de Manuel da Costa Brioso e Salvador de Sousa na “nova fábrica de telha vidrada”, instalada em 1773.

Podem ter sido encomendados a esta fábrica, os painéis com os cortes e alçados (MNMC11717) . dos novos edifícios concebidos por Eldsen, que D. Francisco de Lemos, Bispo-Reformador-Reitor, mandou aplicar numa das salas do paço episcopal, para perpetuar o seu papel na elaboração e implementação dos Estatutos da Universidade.

Depois do brilhantismo alcançado durante o séc. XVII e em contraste com o azulejo, a faiança da primeira metade do séc. XVIII, revela uma decadência bem manifesta na “louça conventual” (MNMC1447) , justificada pela conjuntura político-económica.

No último terço do século assiste-se a uma viragem, para a qual foi determinante a política protecionista implementada pelo Marquês de Pombal.

Segundo Joaquim de Vasconcelos, nas últimas décadas do século XVIII seriam cerca de 25 as fábricas de faiança em laboração um pouco por todo o País.

Ao invés do verificado no século XVII, a produção desta época reflete o gosto internacional, particularmente evidente nas faianças de sabor neo-clássico, produzidas depois de 1790.

Fundada em 1767, no contexto de uma política mais alargada de fomento da indústria nacional, a Real Fábrica de Louça, (MNMC4692 e MNMC9435) ao Rato influencia decisivamente a produção da época, mantendo-se ativa até 1835.
Do surto industrializador do último quartel do século XVIII, a última fábrica a ser fundada, em 1796, é a da Bica do Sapato, (MNMC1484) . cuja produção, tem grande afinidade com a de Estremoz.

Outra produção periférica é a da fábrica do Juncal, fundada em 1770.

Na génese e desenvolvimento da indústria cerâmica da região do Porto, está um grupo de homens que, beneficiando da política protecionista vigente, cria, a partir de 1764, as maiores unidades industriais da época e que irão perdurar mais tempo: Massarelos, Miragaia, Sto António do Vale da Piedade e Cavaquinho

Outro centro produtor com alguma relevância, foi a região de Viana do Castelo.

Embora haja referências ao fabrico de faiança em Coimbra, logo no início do séc. XVII, não se conhecem peças desta época que seguramente se possam atribuir a este centro de longa tradição cerâmica.

Porém, no séc. XVIII, assiste-se a um desenvolvimento sem paralelo da cerâmica coimbrã, sendo habitual dividi-la nos seguintes grupos: Pré-Brioso (MNMC4709) ; Brioso - 1ª época; Brioso - 2ª época (MNMC9426 e (MNMC10009 ) e Vandelli (MNMC9418) .

No Rossio de Santa Clara, Domingos Vandelli, inicia em 1784, a produção da que foi considerada a melhor faiança do país, em concorrência com a Fábrica do Rato.

A «louça ratinha» deve o seu nome à alcunha posta aos trabalhadores das Beiras, seus grandes consumidores, que sazonalmente se deslocavam para o Ribatejo e Alentejo.

Curiosamente, os pratos da fase mais antiga da produção têm inequívocas afinidades com decorações persas, uma coincidência para a qual ainda não há explicação .

Esta louça, destinada a consumidores de poucos recursos, apresentava vidrado pobre em estanho e decoração esponjada em contraste com a louça “vandel”, de melhor qualidade técnica.