Espaços de guardar, espaços de conforto

Esta coleção, embora lacunar, situa-se entre o séc. XVI e o séc. XIX, abrangendo os períodos manuelino, renascentista, filipino, barroco, rocaille e neoclássico. Ilustra a evolução e algumas das principais características, em termos de originalidade e influências, do mobiliário português, distinguindo-o do europeu que lhe serviu de modelo ou fonte de inspiração, permitindo, sobretudo, observar a evolução de determinadas tipologias, particularmente através dos móveis de assento ilustrados.

Arcazes, estantes de coro de grandes dimensões, tocheiros, caixas de esmolas, entre outras tipologias, usadas nas igrejas, estão largamente representadas na coleção. Expostas encontram-se, no entanto, quase exclusivamente, peças de uso civil ou adaptadas a essa função, uma vez que são elas que melhor ilustram a qualidade e importância deste acervo.

Móveis góticos são raríssimos nos museus, devido não só às parcas exigências de comodidade da época, mas também à precariedade da matéria-prima, aos rudimentares processos construtivos do mobiliário doméstico comum e, talvez ainda, à pouca estima em que foram tidos nos séculos seguintes.

Pouco frequentes são igualmente as peças de influência renascentista que começa a instalar-se em Portugal no final do reinado de D. Manuel, acompanhando uma maior estabilidade social, responsável pela diversificação do móvel.

No séc. XVI o armário (MNMC8072) começa a ganhar relevo, embora a arca continue a ser o móvel de guardar por excelência.

Na primeira metade do séc. XVII esboçam-se as características mais marcantes do mobiliário nacional, com o emprego do couro lavrado e das “madeiras da Terra” – carvalho castanho e nogueira – progressivamente substituídas pelas “madeiras de Fora”, vindas de África, Índia ou Brasil, em que sobressai o pau santo. O móvel de assento é a peça dominante.

Na época filipina desenvolve-se uma importante oferta de mobiliário caracteristicamente português, englobando sólidos tamboretes , cadeiras rasas ou de braços, com assento e costas em couro gravado, inúmeras arcas e pequenas mesas de estrado. Caracteriza-os uma austera geometrização, quer das formas – móveis sóbrios, de linhas retilíneas, sem volumes salientes, torneados de balaústres simples ou suportes direitos de secção quadrada ou retangular – quer da decoração, patente sobretudo no desenho dos embutidos e nos espinhados e tremidos.

Paralelamente, o mobiliário deste século ilustra ainda o contacto com outros povos e outras culturas, através de estilos híbridos, testemunhos de viagens, encontros e vivências. Estas peças, particularmente as indo-portuguesas (MNMC1277) e (MNMC1222) , assumem o estatuto de mobiliário de luxo, em que o contador representa a tipologia mais carismática.

As lacas namban (MNMC2373) contam-se igualmente entre os objetos mais apreciados. Destinados à exportação, são produzidos segundo técnicas tradicionais, embora testemunhem uma tipologia formal de mobiliário comum na época, no Ocidente, mas desconhecido no Japão até à chegada dos portugueses.

O séc. XVIII, que se caracteriza pela introdução de um novo estilo, herda do século anterior a cadeira de couro (MNMC1223) . Embora com grandes transformações, esta continua a ser uma das mais felizes criações nacionais. A par dos couros lavrados, simples e esticados por pregaria, usa-se, embora com menos frequência, o estofo. Este é coberto por veludo ou damasco e, nalguns casos, por couro liso ou tecidos mais fracos, sendo-lhe adaptadas capas móveis de tecido, pelo que recebem o nome de “ cadeiras de vestir (MNMC2837) .

As denominadas “cadeiras de sola” passam de moda e o cunho de originalidade dos móveis portugueses ver-se-á gradualmente diluído, por influência dos modelos europeus, devido sobretudo aos casamentos reais com princesas estrangeiras.

Os principais modelos são franceses, italianos e ingleses. Dos reinados de D. João V, D. José e D. Maria, a coleção é rica em exemplos que documentam o esplendor do Barroco, a viragem “rocaille” e, finalmente, uma reação neoclássica. Especialmente os dois primeiros representam florescentes períodos da marcenaria em Portugal (MNMC1226) , (MNMC2837) (MNMC2374) .

O início do século, período de prosperidade económica e ostentação do poder, corresponde ao reinado de D. João V e é marcado por profundos ecos da corte francesa, instalada em Versailles (MNMC10887) . Caracteriza-se por uma monumentalidade própria do Barroco, com destaque para a exuberância dos volumes entalhados, onde predominam a concha e os concheados concebidos simetricamente, a partir de um eixo vertical (MNMC6001) .

A ideia de conforto impõe-se como característica dominante neste período, conduzindo à multiplicação dos móveis, particularmente os de assento e repouso como preguiceiros e canapés. Juntando-se a um conjunto de cadeiras, em número variável, formam as mobílias de sala. O canapé (MNMC6019) surge como resposta ao assento coletivo, por um lado, de acordo com os novos conceitos de conforto, por outro lado, revelando o gosto pelo convívio social restrito.

A partir de 1750, durante o reinado de D. José, embora prevaleça a influência inglesa, sobretudo no norte do país, caracterizando o gosto da burguesia dominante, o mobiliário continua a refletir influência dos modelos franceses, particularmente o estilo Luís XV, que é apanágio das altas hierarquias sediadas na corte, na capital.

No período convencionalmente chamado de D. Maria (1777-1816), o mobiliário está mais intimamente ligado à arquitetura, embora, dado o conservadorismo da rainha, o Rocaille se mantenha em Portugal até ao final do século. Nos novos modelos são evidentes as influências inglesas, particularmente dos desenhadores de móveis Chippendale, Hepplewhite e Sheraton.

Divulga-se o uso da palhinha e adotam-se motivos neoclássicos. O trabalho em pau santo e em madeiras maciças é, neste período, preterido a favor dos marchetados em madeira de cor clara sobre folheado. No sul, faz-se sentir mais a influência francesa – revestimentos folheados e marchetados, segundo composições geométricas. As formas são simples, de linhas puras, banindo-se definitivamente as linhas curvas. Entre finais do XVIII e inícios do XIX, o mobiliário português acaba por adotar o Neoclassicismo.

Como consequência de uma época conturbada de guerra, marcada também pela partida da família real para o Brasil e pelas invasões francesas, o mobiliário nacional sofre nova crise de identidade. Intensificam-se as importações que conduzem, embora com relutância, à renovação do gosto, aceitando-se gradualmente as formas mais rígidas do estilo Império francês que pretende de novo reabilitar as formas puras da Antiguidade.

O mobiliário império corresponde ao reinado de D. João VI. Assiste-se à preferência pelo mogno maciço ou folheado e ao abandono dos marchetados tão apreciados até então. As superfícies escuras, lisas e polidas do mogno são animadas pela aplicação de bronzes cinzelados e dourados, frequentemente substituídas por madeira entalhada, gessada e dourada, por vezes enquadrando escudos (monogramas)

O Museu possui alguns exemplares deste estilo, enquadrados na categoria dos móveis de assento – hirtos, com pernas de secção quadrada, lançadas em sabre, e apoios dos braços ornados de esfinges e cariátides, colos e cabeças de cisnes.

No entanto, tal como acontece na maioria das coleções nacionais, a sua escassa representatividade é justificada pela fraca adesão dos marceneiros a este estilo. A geometria e rigidez de formas que o mobiliário império apresenta distancia-se bastante das tradições artesanais portuguesas.