Este conjunto apresenta qualidades plásticas e compositivas pouco frequentes no panorama da pintura portuguesa de Quatrocentos. Revela claras infuências da pintura castelhana coeva, conjugadas com características da pintura flamenga como, por exemplo, o tratamento perspectivado dos fundos e a marcação dos edifícios

O programa iconográfico, de grande unidade temática e simbólica, estrutura-se na ideia de Cristo Redentor, pela Eucaristia: o painel esquerdo, Cristo no Horto, narra o primeiro momento da Sua Paixão, confirmado pelo crucifixo inscrito na hóstia, suspensa sobre o cálice; o painel lateral direito, Lamentação, descreve o último momento da Paixão. No painel central, de iconografia clarissa, Santa Clara e o milagre da Custódia, narra-se o principal episódio da lenda da patrona do Convento, onde Cristo ressuscitado, consubstanciado na hóstia, afugenta os infiéis.

Na predela Cristo e os Apóstolos assistimos ao momento-chave deste programa eucarístico: a Ceia.

Em compromisso com a tradição judaico-cristã, a Última Ceia é o momento do anúncio da Ressurreição. Nesta pintura Cristo chora, de forma quase imperceptível e, apesar de só João Evangelista, à Sua esquerda e Tiago, à Sua direita, serem identificáveis pelos atributos, há um olhar profundo, directo ao Mestre, vindo do extremo direito da mesa, que capta os sentidos do observador: o olhar de Judas.