Por encomenda de D. Manuel I, Quentin Metsys executou em Antuérpia, entre 1514 e 1517, o tríptico de que se conservam os volantes. Estando o tríptico fechado, o observador deparava com a Anunciação – primeiro momento da vida terrena de Cristo – em grisalha, em tons de branco, cinza e rosa. Das cenas que encerram este ciclo falava o interior: ao centro, o Calvário; aos lados, a humilhação infligida pelos romanos (Flagelação) e pelos judeus (Ecce Homo). Os temas e as dimensões das figuras, a posição da cabeça e das mãos da Virgem, conservada em fragmento, parecem autorizar a restituição conjetural do Calvário.

Já em 1931 o historiador da Arte, J. de Figueiredo, vira no pequeno quadro oval, figurando uma Virgem Dolorosa, um fragmento do painel central. Com efeito, trata-se de uma falsa oval, pois a extremidade direita é uma tira pertencente à zona inferior da orla do manto da Virgem, como facilmente se depreende do bordado fingido a ouro.

Os repintes, grosseiros na cor e na pincelada, por de mais aparentes no punho esquerdo, mostram que a obra a que refere o ex-voto da prioresa, escrito nas costas da peça, mais não foi do que aproveitamento de uma parte do tríptico que um desastre – inundação ou incêndio – arruinara. Aliás, as arquiteturas representadas nos volantes mostram que estes foram cortados nos quatro lados.

No volante esquerdo, as deformações fisionómicas dos rostos dos carrascos, comuns na obra de Metsys, desta fase, recordam as caricaturas de Leonardo da Vinci, com quem contactou. No volante direito, o primeiro plano, onde estão os fariseus, e o segundo, onde se encontra Jesus, aproximam-se num efeito de intensidade expressiva, reforçada pela catedral de Antuérpia que, à esquerda, enquadra esta cena.
Ao contemplar esta obra entendemos bem a preferência dos portugueses de Quinhentos pela pintura flamenga, emotiva, como referia Francisco de Holanda, mas igualmente bela.