Por muito rudimentar e incompreensível que hoje nos pareça, a escultura românica constituía uma linguagem – cifrada, é certo – que a comunidade entendia e através da qual se procurava suscitar o diálogo do homem com a divindade e consigo próprio.

No portal, as imagens do tímpano, sobre o vão, mostravam que aquela era a casa Sagrada, lugar de refúgio onde todos podiam encontrar salvação, mas que era indispensável respeitar, evitando as tentações e os perigos do dia a dia, muitos deles representados nas arquivoltas e nos capitéis.

No interior da igreja, os capitéis eram como livros abertos suscitando a atenção dos fiéis, para lhes relembrar o que já lhes fora dito na “porta do céu” ou para aduzir novos avisos, exemplos ou revelações.

A inclusão de dois capitéis românicos na lista de peças de referência deste museu justifica-se pela sua qualidade intrínseca e também pela oportunidade de chamar a atenção para uma expressão artística geralmente pouco valorizada, pelo grande público, como é a arte românica.

Pena é que as limitações de espaço não permitam ao museu expor muitos mais exemplares da sua valiosa e extensa colecção, proveniente dos principais templos da cidade que é, com justiça, considerada a “capital do românico português”.

Pelo facto de Coimbra ser, no séc. XII, a capital do reino e aí se concentrarem o saber, a cultura e a riqueza, a arte das suas igrejas apresenta uma marca de erudição e elegância, aliadas a um alto nível técnico, que a distingue. Marca brilhantemente definida como a “síntese nacional entre influências estrangeira e moçárabe” operada na Sé e que viria a influenciar toda a produção da época.

As suas três centenas de capitéis ilustram o repertório completo desde os entrelaçados de fitas e folhagens aos símbolos de vigília e protecção, pecado, castigo e perdão, morte, juízo final e imortalidade, entre muitos outros. Contudo, a presença até tarde de artistas moçárabes, na cidade e na região, e a brandura do calcário convidavam aos finos lavores geometrizantes e vegetalistas dos gessos islâmicos em desfavor das narrativas de pendor religioso.

Em Coimbra, homens, bichos e monstros são chamados, sobretudo, a decorar, contrariamente ao que vemos noutras regiões. É no norte, na ruralidade das bacias dos rios Minho, Lima, Cávado e Ave, onde a actuação e influência dos monges beneditinos mais se fez sentir, que a pedra dá maior relevo ao discurso catequético e moralizador.

Não se estranha por isso, que em Coimbra seja a nova igreja de S. Pedro – cuja fundação se deveu, um século antes, ao mosteiro de Lorvão – a que oferece maior afinidade com o chamado românico beneditino.

Os leões em pé, contrapostos – que vemos num dos capitéis que elegemos como peças de referência –, agarrando a sua presa, foram introduzidos em Portugal pela Ordem beneditina. O mesmo se pode dizer dos leões atlantes que decoram duas bases, também provenientes de S. Pedro e que se encontram em exposição. São motivos de origem oriental, divulgados a partir de Itália, via sul da França, por intermédio da abadia de Cluny. Estas, entre outras presenças, ajudaram a datar a igreja na transição do terceiro para o último quartel do séc. XII.