Pesos e medidas padrão do Município de Coimbra Pesar e medir. Uma história de milénios

O desenvolvimento das trocas comerciais exigiu mais rigor, cedo conduzindo à invenção de unidades-padrão. No 4º milénio a. C. os egípcios já possuíam um sistema ponderal… No entanto, em todos os tempos e lugares, a história regista diversas formas de resistência à adopção de um sistema universal, em sinal de afirmação das tradições locais ou do poder de alguns nobres. Assim se explica a gravação em portas de muralhas, igrejas e residências senhoriais, dos diferentes padrões aí utilizados. A grande diversidade de pesos e medidas e os diferentes nomes porque eram conhecidos, de região para região, suscitaram várias tentativas régias para uniformizarem os padrões a nível nacional. No reinado de D. Pedro I, as Cortes de Elvas, de 1361, decidiram que a alna seria a medida para os panos, o côvado para distâncias e o almude para o vinho. Com D. João II é adoptado o marco de Colónia para padrão de peso. As reformas de D. Manuel I, D. Sebastião e D. João VI irão mais longe, ao dotarem cada concelho com uma colecção de medidas-padrão. Os pesos e medidas aqui expostos pertenceram ao concelho de Coimbra. Os mais antigos fazem parte do acervo do Museu Nacional de Machado de Castro. Os que são posteriores a D. João VI são ainda propriedade da Câmara Municipal de Coimbra.

Aferição

Para o controle das medidas padrão e das balanças existia uma prática de aferição. Este trabalho era desenvolvido pelo almotacé (do árabe al-muhtasib). O primeiro cargo de almotacé foi criado pelo conde Sisnando, em Coimbra, na segunda metade do século XI. No entanto é com a lei da almotaçaria de D. Afonso III (1253) que todos os concelhos passam a ter o seu almotacé. Com D. Afonso V, em 1441, é criado o cargo de Almotacé-Mor do Reino, cargo extinto em 1832. A partir de 1868 a aferição ou afilamento dos pesos e medidas é entregue às câmaras municipais. Uma das práticas usadas era marcar com punções, aquando da aferição, as peças que não estivessem em conformidade com a unidade padrão.

As reformas de D.Manuel I

Caixa de pesos-padrão, 1499, Bronze, MNMC12208

Caixa de pesos-padrão, 1499, Bronze, MNMC12208

A Reforma Manuelina (1499) tentou pôr termo à desigualdade e confusão dos pesos e medidas que continuava a vigorar em Portugal. Para simplificar as trocas comerciais definiram-se os múltiplos, os submúltiplos e os seus valores em relação à unidade padrão.

A nomenclatura e os produtos a que cada uma das medidas de capacidade se destinava são assim definidos: para os cereais e o azeite – o alqueire, o meio alqueire e a quarta; para o vinho – o almude, o meio almude, a canada, a meia canada, o quartilho e o meio quartilho.

Para a regulamentação dos pesos, D. Manuel I mandou fundir um conjunto de pesos em bronze que se encaixavam uns nos outros e cuja caixa tinha uma asa para facilitar o transporte. Na tampa aparecem o escudo real português e a esfera armilar manuelina. O rei mandou dotar os concelhos com os novos padrões de peso, não tendo acontecido o mesmo relativamente às unidades de volume de secos e líquidos.

As reformas de D.Sebastião

Almude, 1575, Bronze, MNMC12218

Almude, 1575, Bronze, MNMC12218

No reinado de D. Sebastião (1575) era ainda grande a divergência de medidas de capacidade. Para as unificar, o rei mandou distribuir, pelos concelhos, padrões das unidades de volume. Estes são de bronze e apresentam as armas reais, tendo-se adoptado o padrão de medidas de Lisboa. As medidas para líquidos como o vinho e o azeite são: o almude (unidade fundamental), o meio almude, a canada, a meia canada, o quartilho e o meio quartilho. Ao contrário do que acontecia no reinado de D. Manuel, deixou de ser tolerado o uso de medidas locais.

O Alqueire - Alqueire, do árabe al-kayl, a medida.

Oitava, 1575

Oitava, 1575
Bronze, MNMC8239

Desde a fundação da nacionalidade que os reis usavam a palavra alqueire para designar a medida fundamental de sólidos. Embora extinto pelo Decreto de 1852, a força da tradição é tão grande no que se refere a esta unidade que ainda hoje o alqueire serve de unidade de transacção nos meios rurais. Além disso, quando alguém apresenta um comportamento extravagante, desviado dos padrões socialmente considerados normais, diz-se que “não tem os alqueires bem medidos”. A nomenclatura das medidas para secos que passa a vigorar com D. Sebastião é a seguinte: fanga (equivalente a 4 alqueires), alqueire (unidade fundamental), meio alqueire, quarta e oitava.

Introdução do Sistema Métrico em Portugal

Conjunto de medidas-padrão

Conjunto de medidas-padrão
1818(Reforma de D.João VI)
Latão;folha de flandres;vidro,madeira
MNMC8192

Em 1812, a reforma do sistema dos pesos e medidas nacionais foi pensada pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Dois anos mais tarde, D. João VI promulga um sistema métrico decimal, no essencial semelhante ao mètre francês, mas que por razões políticas (o recente trauma provocado pelas Invasões Napoleónicas) levou à manutenção de uma terminologia de origem portuguesa, designada por “mão travessa”. As diferentes unidades passaram a designar-se por: mão-travessa = 1/10 metro; canada = litro; libra = quilograma Deste modo, em 1814, D. João VI manda executar no Arsenal do Exército trezentos conjuntos de padrões de peso e medidas.

Adopção definitiva do Sistema Métrico Decimal

Universalidade e simplicidade foram os dois princípios que nortearam o sistema métrico decimal. A primeira condição verificava-se quando todos os países do Mundo adoptassem esta medida padrão, enquanto a simplicidade ocorria naturalmente, já que todo o sistema se baseava numa só unidade: o metro. A concepção do sistema métrico ocorreu em França no ano de 1791. Ao longo do século seguinte, muitos países adoptaram-no, mas os de influência anglo-saxónica conservaram, em paralelo, o sistema inglês. Em Portugal, o Sistema Métrico Decimal só veio a ser adoptado por decreto de Dezembro de 1852, utilizando a nomenclatura francesa: metro, litro, quilograma.> Até meados do século XX, a aferição de pesos e medidas coube às Câmaras Municipais. Em 1986 foi criado o Instituto da Qualidade, cuja Direcção de Metrologia passou a ter a seu cargo o controlo dos pesos e medidas em todo o País.

Hoje são sete as unidades de base do Sistema Internacional