Descrever uma pintura desta natureza, pode levar-nos a um território árido. Pode perder-se na descrição, por isso, aquilo que se apresenta aqui, deixa o observador livre na interpretação e nos seus anseios. O livro do “Apocalipse” foi o ponto de partida para a pintura, junto de acontecimentos contemporâneos. Da passagem bíblica à crise económica, aos conflitos de uma cultura mundial e por extensão Europeia, nomeadamente a Portuguesa.

Constitui uma narrativa a cores e traços, que pode não corresponder de imediato e taxativamente ao texto da visão do Apostolo João, aquele que relata o Apocalipse. Não há qualquer intenção de ilustrar, nem de tomar total controlo da descrição textual que está como pano de fundo.

Trata-se antes, de uma pintura que sublinha alguns aspectos de uma “revelação” (outro significado para Apocalipse em Grego) apelando à gratidão e à união. É um esforço e pedido para uma introspecção. Uma vontade de fim da história “era uma vez mais” o Homem acima dos deuses e dos mistérios e sobretudo acima dos próprios Homens. Procura edificar uma viagem pelo verdadeiro âmago humano. Por isso, corresponde-se com o atirar da moeda ao ar, com o descobrir que esse acto não escolhe lados favoritos aquando da queda.

O quadro na sua totalidade divide-se em 7 painéis, remetendo-nos à passagem bíblica do génesis. Encontramos de imediato 3 centros principais: Lado esquerdo, centro e direito. Mais à esquerda predomina “A mãe grávida” (Ap 12, 1-2) segundo a “mão de deus”, sublinhando a ânsia e fé dos justos Portugueses (Fig 1). Ao centro destaca-se o matrimónio (Ap 21, 2-9), já que a pintura assume o amor e o arrependimento do pecado como o cerne da revelação (Fig 2). O lado direito da composição representa simbolicamente o castigo e o tormento dos injustos. Vemos o Arcanjo Miguel (Ap 12, 7) a apreender e a transportar a bandeira da CEE (Fig 3).

Descrição das partes (da esquerda para a direita na composição): (Fig 4) A partir da expressão “4 cantos da terra”, vemos 4 colunas. Procurou-se a representação do trono de deus (Ap 4). A fé na Igreja, nos Portugueses. A mulher grávida vestida de sol e lua (Ap 12) aponta para a composição mais à direita do quadro. Tratasse de um desejo por acção depois de esperar por Sebastião. É um apelo à contestação e ao desmascarar dos injustos. É para lá que a mulher quer levar os seus barcos (caravelas Portuguesas). Aqui ainda se vêem silhuetas que correspondem aqueles próximos de Deus, os 24 anciãos, os 4 viventes, Touro, águia, o meio homem e meio animal (Ap 4).

(Fig 5) O cavaleiro mais à frente, em primeiro plano, simboliza os 4 cavaleiros do apocalipse (Ap 6, 1-8) e ainda a justiça.

(Fig 6) No canto inferior esquerdo um pequeno anjo dá uma bofetada a um centauro engravatado. Esta composição quer revelar a vontade de um novo mundo, como um jovem que quer erguer um futuro aproveitando o melhor do passado, reorganizando-o. O objecto de arremesso é uma sardinha. É um apelo às futuras gerações de Portugal.

(Fig 7) Canto superior esquerdo. As velas de um barco (símbolo das caravelas Portuguesas) prolongam-se e descem do trono de Deus por uma das colunas, transformando-se num pano. Recordando Cristo a lavar os pés aos seus discípulos (S. João 13, 13-16) encontramos aqui mãos que lavam pés aos oprimidos. O senhor que humildemente toma o lugar do servo e o acarinha, participando da sua dor.

(Fig 8) Deus a figura maior desta pintura entendido como uma grande montanha, associa-se aqui com o monte Sião e Jerusalém (Ap 14, 1 e 21), simbolizando o incomensurável. A sua cabeça é o sol, o alimento de vida. Dos seus raios sai a luz para todo o quadro, deles saem também os anjos das 7 trombetas (Ap 8; 9; 11, 15).

(Fig 9) Esta figura corresponde ao anunciar do Julgamento.

(Fig 10) Mãos que seguram a vontade de Deus. Símbolo da vontade divina. O cavaleiro com foice corresponde às batalhas e por consequência à morte dos injustos (Ap 14, 15-19).

(Fig 11) Corresponde à nova Jerusalém (Ap 21, 2-9), à renovação de todas as coisas, a cidade como uma esposa. O carneiro místico (Ap 5, 6-14; 14, 14; 19, 9; 21, 9) que todos adoram salta em direcção à noiva. Simboliza o despertar para a acção justa de todos para sair da ruína, merecendo depois habitar na cidade. O coração que se ergue numa bola de sabão testemunha o casamento e depende dele para se manter no ar.

Se o mar Português é uma conta que Deus não fez é por mão do Homem tal cálculo. Se para João esta era uma visão de consolo aos perseguidos, também esta pintura quis interpretar assim essa mensagem. A salvação daqueles que acreditam na verdadeira união e confraternização de um “povo feito de montanhas e vales à beira mar”, que merece mais no seu fado.

Jerusalém é noiva (Ap 21), a cidade que se ergue acima dos despojos da babilónia aquela símbolo do capitalismo, onde alguém acaba por comer gato por lebre se tiver ainda sorte de o comer (Ap 18).

O desejo profundo desta pintura, é o de renovar votos e elogios ao amor, sobretudo à união e matrimónio entre os Povos. Por isso vemos o coração numa bola de sabão. A sua fragilidade ou força dependerá da união de todos aqueles que realmente constituem o cenário humanista. Aproveitou-se também o símbolo de coração para associar e elogiar a cidade de Guimarães Capital Europeia da cultura em 2012 (altura em que a obra esteve exposta no Museu de Alberto Sampaio e posteriormente no Paço dos Duques de Bragança), que de facto comunga destes mesmos valores da devoção e da gratidão.

(Fig 12) Vemos o Arcanjo Miguel a apreender a bandeira da CEE, ele quer confiscar a união em prol de uma mais democracia mais justa e digna, santificando verdadeiramente o círculo de estrelas.

(Fig 13) O homem que segura o carrinho de compras contempla, em parte, o matrimónio e o castigo dos dragões. Simboliza os sete pecados mortais. 1 – Luxúria (no seu carrinho encontra um busto quadrado com dois seios); 2 – Avareza (apego ao carrinho de compras); 3 – Gula (figura obesa e o carro cheio); 4 – Inveja (desejou ser santo e recebe esse símbolo enganosamente pelos braços e mãos de anjos do mal); 5 – Vaidade (figura vestida com um fato “aquele que veste um blazer para dizer coisas importantes); 6 – Preguiça (desmazelamento por si e por aquilo que carrega ex. saco de compras rasgado. É ajudado e protegido por outros nas suas tarefas (anjos do mal) ex. chapéu de chuva que visualmente sugere também um nariz de mentiroso à própria figura); 7 – Ira (não se encontra representada, por isso, não faça uma procura excessiva do pecado em falta, pode levar à ira e ao pecado).

Esta figura abaixo do matrimónio pode ser combatida por ele. Os valores do matrimónio combatem os 7 pecados com caridade, generosidade, temperança, diligencia, paciência e caridade.

(Fig 14) Perto do Arcanjo Miguel vemos o apóstolo João em cima de um rochedo que simboliza a ilha de Patmos. Esta pintura sublinha a coincidência entre a visão de João na ilha grega, a crise europeia e ainda o relato mitológico do Rapto da Europa (também ele aqui reinterpretado).

(Fig 15) Ao longo do quadro e da bandeira que o Arcanjo Miguel segura na mão, vagueiam medusas venenosas com rosto de fantoches. Elas são símbolo dos exércitos do mal, “anjos do dragão”, aqueles que erguem a falsa democracia. Analogia com a multiplicação das medusas que tendem acabar com a diversidade da vida nos oceanos.

(Fig 16) O pântano de enxofre, o fogo ardente, onde o falso profeta e a besta e todo o mal ficaram aprisionados o resto dos tempos, em tormentos eternos (Ap 20, 10).

(Fig 17) O mar transformado em sangue, a morte e vida. (Fig 18) Figuras amontoadas numa construção aglomerada. Símbolo da especulação imobiliária, do amontoar das prisões, dos territórios e fronteiras como força dos impuros. É ainda a casa da mentira, daqueles marcados na mão pelo número da besta ”seiscentos e sessenta e seis” - só eles podem vender só eles podem comprar - (Ap 13, 16-18).

(Fig 19) Do pântano de enxofre ergue-se um bloco que sustenta a Árvore da Vida que está no centro de Jerusalém, aquela que as folhas curam nações (Ap. 22, 2) Resolveu-se descer a Árvore à terra para junto dos homens, erguer a mesma perante as ruínas da babilónia. Ela é ponto de partida para o cavaleiro que aprisiona o mal, é símbolo de Deus a inspiração à nossa convicção.

(Fig 20) Babilónia corresponde à meretriz devorada pelos próprios filhos. Ela é símbolo da prostituição na terra (Ap 17). No quadro aparece após a sua queda e ruína (Ap 18).

(Fig 21) As taças da ira de Deus (Ap 16). Anjos guerreiros e vitoriosos perante o mal (Ap 19, 11; 20).

(Fig 22) Os reis que remam dentro do bico de um pássaro (Ap 19, 17-21) e as medusas em grupo esvoaçando pelos céus apanhadas pelo cavaleiro e engolidas por um peixe (Fig 23), simbolizam o fim da opressão.

Considerações finais:

A pintura apela à união, aquela que em gestos curará feridas. Homenageia a humanidade que se preocupa com refugiados, a mesma que envergonha mentiras. Uma humanidade que sabe que existirá de qualquer forma um Juízo final, tenaz na denúncia da crueldade. O que resta à maior montanha do mundo se os Homens decidirem juntos movê-la? Então mãos à obra por um coração melhor! Comecemos, por exemplo, por distribuir educação, filosofia, arte, entre outras disciplinas não tão determinadas a funções verticais e deterministas. Lateralize-se a norma rígida com contemplação a cada passo, processo ou percurso, “gratidão aos molhos” pela fotossíntese que forma tanto a flor como o humanista.

Mário Vitória, Porto 2012