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Coimbra Medieval

Muralha medieval

Coimbra medieval impressionava pela imponência da sua muralha, defendendo uma área cujo perímetro e traçado urbanístico remontam à época romana, e foram conservados no período visigótico tendo sobrevivido ao domínio muçulmano. O recinto muralhado - almedina - não abrigava, porém, toda a vida da cidade. Extramuros, estendia-se o arrabalde , em franco desenvolvimento no séc. XII. Este foi, para Coimbra, o século da construção dos seus grandes templos. Na almedina, ergueu-se a Igreja de S. Pedro, a de S. João de Almedina, a Sé, e as igrejas de S. Salvador e de S. Cristóvão; fora das muralhas construiu-se o Mosteiro de Santa Cruz e reedificaram-se as igrejas de S. Bartolomeu, S. Tiago e Santa Justa.

Igreja de Santa Justa

Remonta ao ano de 1098 a mais antiga referência que se conhece desta igreja. Localizava-se perto do rio, no local hoje conhecido por “Terreiro da Erva”.

Está também documentada a sua doação, em 1102, por D. Maurício, à época bispo de Coimbra, ao mosteiro cluniacense de Santa Maria da Caridade (Charité-sur-Loire), para hospício dos franceses.

Data ainda do séc. XII, mas já no período afonsino, a reconstrução da igreja e seus anexos, obra do presbítero Rodrigo, falecido em 1155, conforme testemunha a inscrição comemorativa que actualmente integra o acervo do Museu.

No reverso desta lápide encontra-se gravada uma cabeça de felino de cuja boca saem ramagens; a placa parece corresponder ao reaproveitamento de uma pedra da anterior igreja. A importância acrescida desta peça justifica-se assim, quer pelo seu valor histórico-documental, quer por constituir o único vestígio actualmente existente da igreja de Santa Justa, dita a Antiga.

As enormes cheias e consequentes aluviões que assolaram a baixa da cidade, periodicamente, obrigaram ao abandono definitivo deste templo, em 1708. Dele se conservaram, até meados do séc. XX, alguns elementos, de carácter vincadamente gótico, testemunhando uma remodelação total, sofrida em finais do século XIII ou inícios do XIV. Hoje em dia, nada disso é vísivel.

MNMC 653 MNMC 653

Leitura:

HOC : IACET :IN PULCRO : RODERICUS : NEMPE :SEPULCRO. / QUI : DOMINO : CELI : SERVIVIT : CORDE : FIDELI : / NAMQUE : LOCO : XPISTO : TEMPLUM : CONSTRUXIT : IN ISTO / QUOD : BENE : DITAVIT : SACRIS : DONISQUE : BEAVIT / CLAUSTRI : STRUCTURAS : FUNDAVIT : NON : RUITURAS : / ATQUE : DOMOS : CUNCTAS : PER : CIRCUITUM : BENE : IUNCTAS : / SED: VIGILI : CURA : MISERIS : DANS : HIC : SUA : IURA : / TEMPORE : SUB : SCRIPTO : MIGRAVIT : PRESBITER : ISTO : / XVIII : KALENDAS : SEPTEMBRIS : ERA : M : C : LXXXXIII : /

Mosteiro de Santa Cruz

Em 1131 o arcebispo D. Telo deu início à construção do Mosteiro de Santa Cruz para abrigar o primeiro complexo monástico da cidade que viria a ser a mais importante e influente instituição religiosa e cultural do seu tempo.
Situou-se fora de muralhas, em terrenos doados por D. Afonso Henriques que cedo compreendeu o alcance da iniciativa para o seu projecto político.
Em 1132 a comunidade religiosa já contava setenta e dois monges, embora as obras se tenham alongado por vários decénios. No de 50, o altar-mor foi sagrado e a igreja aberta ao culto. Em 66 aparece uma referência escrita ao portal da frontaria, mas em 79 o rei lega ao mosteiro dinheiro e os seus escravos mouros que já não eram necessários na construção da Sé.
São parcos os vestígios da fase românica de Santa Cruz, todavia suficientes para permitirem uma reconstituição da planta da igreja, da sua fachada e decoração interior.
O projecto inicial, cujo autor se desconhece, contemplava uma igreja menos extensa a que veio juntar-se um nartex em tudo semelhante ao da Sé, alguns anos posterior. A atribuição a um mesmo arquitecto parece irrecusável e a conjugação de várias circunstâncias levam a aceitar que mestre Roberto tenha estado em Coimbra em torno de 1157-1160, testando aqui modelos que uma década mais tarde desenvolve noutros lugares da cidade.

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E718 E718

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A obra esculpida, especialmente capitéis, permite supor que em Santa Cruz teve início a escola de canteiros que deu ao românico coimbrão a sua marca inconfundível. Merecem destaque quatro capitéis conservados no Museu, de elevada qualidade técnica, com paralelos na Sé.

As características físicas que apresentam sugerem o lugar da sua colocação no edifício: o mais esguio, decorado nas quatro faces (E718), deveria pertencer à tribuna; o outro, decorado apenas em três faces, poderá ter sido colocado no portal ou janelão.

Igreja de São Tiago

Na encruzilhada de caminhos, com ligação a Compostela, a Colegiada de S. Tiago foi edificada fora da muralha, servindo o bairro burguês da cidade.

Data de finais do séc. XII e inícios do séc. XIII, embora seja referido no séc. XII um edifício que a antecederia no mesmo local.

Conserva na actualidade, como principal documento, os seus dois portais – o da fachada e o lateral, ambos colocados num corpo avançado. O primeiro é formado por fustes espiralados e capitéis com motivos vegetalistas e antropomórficos; o segundo, por fustes prismáticos, decorados com rosetas e vieiras simbólicas do santo, cujo padroado liga o edifício a Compostela.

MNMC 58 MNMC 58  E 716 E 716

O Museu possui dois capitéis, de excelente trabalho escultórico, e de estilo muito semelhante ao da Sé Velha, que pertenceram a S. Tiago, embora se desconheça a sua colocação original. Apresentam motivos zoomórficos – aves (MNMC 581) e animais fantasiados (E716) – próximos da temática presente no portal principal deste edifício.

Igreja de São Cristóvão

Actualmente nada resta desta igreja, demolida em 1860, para no local edificar o Teatro de S. Luís, posteriormente chamado de Sousa Bastos.

Pouco se sabe da sua história. No entanto, quando da demolição do teatro, surgiram estruturas que foram interpretadas, por M. Real, como pertencentes a uma igreja anterior aos condes D. Henrique e D. Teresa.

Documentos de venda de prédios provam que a Igreja de S. Cristóvão existia em 1107-1108. O templo românico, destruído no séc. XIX, corresponde à reedificação de época afonsina, possivelmente iniciada nos finais da década de 1170, quando se completava a fachada principal da igreja de S. Salvador.

Desta igreja conhecem-se uma descrição, uma planta e um desenho da fachada em ruínas. Estes documentos confirmam as grandes semelhanças do templo com a Sé, à qual é posterior. O portal, aqui, apenas diverge daquele, por apresentar tímpano decorado com um Agnus Dei ladeado por tetramorfo .

Mas o que mais o aproxima da catedral é a qualidade da sua escultura, como testemunham os únicos elementos arquitectónicos que sobreviveram à destruição – um conjunto de capitéis, dos quais oito pertencem à colecção do Museu.

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MNMC 588 MNMC 588 MNMC 589 MNMC 589 MNMC 590 MNMC 590 MNMC 591 MNMC 591

Sé Velha

A Sé românica de Coimbra, chamada Sé Velha após a transferência da função catedralícia para o antigo Colégio de Jesus, no séc. XVIII, constitui um dos mais importantes exemplos do românico português. Não se conhece de fonte segura a data do início da obra. Porém, a referência documental à sagração, em 1147, do bispo D. João Anaia, na igreja de Santa Maria, aquela que antecedeu a românica, sugere que a nova igreja terá sido iniciada entre essa data e o começo da década de 50, por aquele prelado.

Em 1162 sucede-lhe D. Miguel Salomão que chama a Coimbra o mestre Roberto, então ocupado na construção da Sé de Lisboa, para introduzir melhorias na obra da sua catedral, incluindo o portal oeste, que estaria concluído em 1172. Nesta data falecia mestre Bernardo, que ali trabalhava pelo menos desde 1162, ignorando-se se terá sido ele o autor do projecto inicial.

 Interior da Sé Velha

Interior da Sé Velha

Fortemente marcada pelo plano e ambiente das grandes igrejas de peregrinação de Itália, França e Espanha, no caminho de Santiago, a catedral exibe um alto nível artístico, aliando os padrões internacionais e a criatividade dos arquitectos franceses, à tradição veiculada pela mão-de-obra mudéjar.


A presença de Roberto está bem patente no característico narthex e nas fases iniciais do lanternim e do claustro.

MNMC 160 MNMC 160

O mais antigo testemunho epigráfico cristão proveniente da Sé de Coimbra é a inscrição descoberta em 1895, posteriormente integrada no espólio do Museu e que actualmente voltou (a título de depósito), ao local a que pertenceu. Trata-se de um lintel, datável do último quartel do séc. XI ou dos inícios do XII

Igreja de São Salvador

Tal como sucede com a maior parte das igrejas de Coimbra, a igreja românica de S. Salvador foi precedida por outra, da mesma invocação. Prova-se documentalmente que existia em 1064, mas dela nada resta. A reconstrução em estilo românico, do período afonsino, está claramente datada pela lápide comemorativa, cravada junto do portal, onde se lê que este foi executado em 1179, a expensas do alvazir Estêvão Martins. Embora mutilado pela reforma do séc. XVIII, que muito desnaturou toda a igreja, o portal filia-se directamente no da Sé, projecto do arquitecto Roberto, chamado a Coimbra para “fazer algumas melhorias nas obras [da Catedral] e no portal” o qual se encontrava concluído em 1172. 

Lápide comemorativa, cravada junto do portal, onde se lê que este foi executado em 1179, a expensas do alvazir Estêvão Martins.

Lápide comemorativa, cravada junto do portal, onde se lê que este foi executado em 1179, a expensas do alvazir Estêvão Martins."

Leitura: + STEPHANVS / MARTINI SVA / SPONTE FECIT: HVNC: / PORTALEM: LETA: / FRONTE: E: M: CC: / XVII: E: M:

Igreja de São João de Almedina

Data de 1083 a referência mais antiga à Igreja de S. João de Almedina, que provavelmente já existia em 1064, a par da vizinha Igreja de S. Salvador mencionada em documento datado desse ano.

Supõe-se que terá sido substituída pela «ecclaesia nova» que D. Sesnando – governador de Coimbra desde a reconquista definitiva da cidade aos mouros – se propõe custear no seu testamento datado de 1087.

Entre 1128 e 1131 fizeram-se obras em S. João, por iniciativa do bispo D. Bernardo (1128-1146). Desconhece-se quais foram, podendo admitir-se que date de então o claustro parcialmente conservado e posto a descoberto no séc. XX,(MNMC 610) quando o paço episcopal foi adaptado a museu.

Na mesma ocasião, apareceram escassos mas importantes vestígios da igreja românica que sabemos ter sido sagrada entre 1192 e 1206. A sua construção deverá ter-se iniciado apenas quando a nova catedral já estava aberta ao culto, ou seja, na década de 70.

Com efeito, enquanto esta se manteve fechada, a Igreja de S. João – parte integrante do paço episcopal – acolheu os actos que normalmente ocorriam na Sé. O completo desconhecimento do programa arquitectónico e decorativo deste templo românico explica-se pela sua total destruição, em finais do séc. XVII, para edificação daquele que ainda hoje se mantém.

MNMC 10072 MNMC 10072

Do ponto de vista decorativo, restam-nos parcos elementos. A escultura distingue-se pelo relevo dado à figura humana e pelo uso de grotescos(MNMC 10072). Alguns modilhões, entre eles alguns com máscaras (E445), ou figuras obscenas (MNMC 3062, MNMC 10126).

O aparecimento de algumas placas com vestígios muito fragmentários de figuras humanas, leva-nos a crer que o portal era ricamente iconografado (MNMC10120, MNMC 10085, MNMC 10116)

MNMC 3062 MNMC 3062

MNMC 3062 MNMC 10126

MNMC 10120 MNMC 10120

MNMC 10085 MNMC 10085

A peça mais importante é no entanto, pela sua singularidade, o busto de um santo, diácono, possivelmente de S. João Evangelista (MNMC 10127), sob cuja invocação estava colocada a igreja de S. João de Almedina.

MNMC 10127 MNMC 10127

Igreja de São Pedro

Destruída no séc. XX para dar lugar à cidade universitária, correspondia, então, ao templo reedificado nos finais do séc. XVIII. Embora constituíndo uma grande reforma, essa obra de reedificação conservou o plano geral da igreja anterior, datada da segunda metade do séc. XII.

Demolição da Igreja de São Pedro .

Demolição da Igreja de S. Pedro

A essa época pertencem os capitéis e outros elementos ornamentais que, em 1945, integraram o acervo do Museu Machado de Castro. Tematicamente filiam-se na corrente artística introduzida em Portugal pelos beneditinos e que se desenvolve tardiamente, com seu apogeu no último quartel do séc. XII.

Documentos datados de 1087 a 1096 referem que, entre esses anos, se construiu a igreja de S. Pedro, pertencente ao Mosteiro do Lorvão, com seu cemitério anexo. Este terá sido o primeiro templo dedicado a S. Pedro, intramuros, que a igreja românica veio substituir.

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Revestem-se de especial relevo os capitéis de S. Pedro com três faces geralmente assimétricas, talvez correspondendo à sua localização no edifício. Pela temática, de cariz vegetalista e zoomórfico, dividem-se em três grandes grupos: zoomórfico, vegetalista -zoomórfico e vegetalista estilizado.

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MNMC 10454 MNMC 10454

Um dos motivos mais frequentes, no primeiro grupo, é o dos leões em pé que agarram presas (representadas por cabeças) com as patas, ou as devoram, ou de cuja boca saem folhagens (E339); o das aves bebendo de um cálice foliar (E369); ou ainda, noutro exemplar, uma sereia que sustenta um peixe e a própria cauda (E338).

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O segundo grupo é constituído por laçaria vegetal, destacando-se sarmentos saindo da boca de felinos e entrelaçando folhas que envolvem uma pinha ou um fruto estilizado (E370).